segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Capítulo XIII - O Bom calado é subjugado pelo Mau, o Mal grita.

Por toda sua vida 5 militou numa causa que hoje mal sabe o porquê. Foram tantos meios, que mal compreendia-se os fins. Odiou e defendeu 1 com toda suas forças. Levantou suas bandeiras, distribuiu seus panfletos, apitou contra sua oposição. Em suma, percorreu todo o circo que a militância política nos obriga a percorrer. Porém, o fio perdeu-se da meada...

Sua vidinha podre, seu corpo decomposto em nome de um devaneio pseudo-sabe-se-lá-o-que era. Dói perceber a própria inutilidade, a fraqueza e o desperdício da vida. A juventude ensacada e enterrada -não volta mais-. A vida passou.

A ignição acabara sendo dada ao perceber que traiu tudo aquilo que um dia acreditou.

Ser tolamente convencido por alguém com tão baixo intelecto como 4 era o que lhe doía mais. Pelo seu rancorzinho juvenil, entregou documentos que carregou a vida inteira, jurando esconder e proteger. Estava cansado, porém, ao mesmo tempo estranhamente aliviado. Perder mais do que tinha seria mendicância, não poderia ficar pior. Força meu camarada.



10 é muito verde, muito jovem. Ainda está na fase de ser contaminado por ideologias e repentes de euforia. 6 analisava seu pupilo. Sentia que haveria de amargá-lo. As tratativas de 1 com o asqueroso 9 havia sido um bom começo, mas precisava de mais.

1 aparece. Constrangido, mas eufórico:

-espero não ter contraído Aids quando a camisinha furou!

Seis, com seu contumaz sorriso sarcástico: -fechou ou não fechou?

Um: Meu c*, não, tá arregaçado!!

Seis e Dez riem, estão leves, tiraram o seu da reta.

Um também ri, 1 é um bom político, sabe se prostituir.

1, triunfalmente, como se declamasse às multidões, o mais teatral possível:

" meu povo brasileiro,

povo sofrido..."

Enquanto 1 contorcia sua cara em seu discurso imaginário, 6 para 10: quanto mais hemorróida mais convincente fica.

Dez sorriu mais uma vez.



O Senhor do Partido sentava-se sozinho. Está em uma das raras ocasiões em que permite-se não usar gravata. No tórax nu, percebem-se diversas medalhas de variadas entidades "protetoras". Nesta profissão há de ter proteção.

No Hades, acabara de ser informado de que 3 haveria de financiar a campanha da candidata do meio ambiente. E isto não pode acontecer. Mulher e Meio Ambiente?! Tinha asco!

Mulheres são bestas, Ecologia é atraso, dizia.

Havia também os outros dois candidatos: o seu e o que não levaria. A era das difamações públicas ficara para trás... bons tempos...



Não era cacique do partido, mas dado às leituras. Lia de tudo e tinha prazer pela manifestações culturais locais. Seu irmão mais velho estava destinado à política local, fora preparado pelo pai, pelo avô, pelo bisavô assim por diante. Por ser o segundo, não recebeu os privilégios dos primogênitos. Dessa forma tinha tempo livre para se dedicar às amenidades.

7511 era o candidato local da oposição. Com a ajudar do senador, seu irmão levaria. Não costumava participar de campanha, observava preguiçosamente à distância.

Uma semana após a eleição, obviamente fraudulentas (dispensa-se maiores comentários) e com suporte federal, seu irmão ganhara... mas não levara... fora assassinado no primeiro pronunciamento público como candidato eleito. O velho discurso: moradia, saúde e educação.

O caciquinho não sabia, não era vice, mas uma espécie de suplente. Haveria de assumir.

Uma semana após assumir, 7511 fora tocaiado.

Nunca mais abriu um livro na vida.

8, após catar todas as latinhas na beira da marginal, dormia embaixo de um  pontilhão. Certas pessoas 'são' porque querem, outras não. Infelizmente certos estragos jamais se recuperam. Certas vítimas metamorfoseiam em algozes. Quando a rua torna-se limpa, aconchegante e um bom lugar para se morar, é sinal de algo vai mal: 

Oito não conheceu o pai, mas fez doutorado em padrastos. Tão clichê quanto meu texto, foi o círculo vicioso da violência doméstica à ruptura familiar, à rua, à cola, à internação pelos atos infracionais,  à maioridade, à prisão.  Não existe salvação, é o que está aí. Aí estava Oito, entregue à própria sorte, entre a mendicância, o furto, o roubo... reproduzindo a escalada da violência que conheceu deste sempre. Catava latinhas ao fim de suas pedras. Era ruim de assalto, o último lhe rendeu anos de reclusão em virtude do latrocínio. Era melhor lá dentro, porém difícil arrumar mulher. Agora 8...
...conheceu 2. É a sua chance de se arrumar. Sua cabeça confusa ainda conseguia funcionar em prol da malandragem.  Honestidade?  Não é que não saiba, simplesmente não  conseguia compreender.

E por que haveria de compreender?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Capítulo XII - Despeja-se o Magma Cítrico

 2 não assimilara a sabedoria da vida. Com sua compulsão por malandragens há muito viciara-se em seus usuais pequenos golpes.
 8 não assimilara a sabedoria da vida. Da esperteza dissolvida pela manguaça e posteriormente por pedra (levaram tudo). Agora só força bruta de um cérebro que não consegue fazer a menor força. O peso dos músculos malhados à carroça contrastam com a frivolidade dos pensamentos morais. Superego nulo.
Duas mentes que não valem por uma não podem compor plano mais paupérrimo: saquear a casa do patrão, sob a justificativa de anos de exploração! Assim, de sopetão! Planos mirabolantes que surgem depois de coitos consumados, depois de consumos de substâncias, depois de qualquer coisa.... projetos paridos de sustos tentem a desmoronar tal qual castelos de biscoitos de polvilho.
A lhanura de tal improvisado plano de furto é azo para lotar as cadeias nacionais. Se for para ser burro é melhor ser honesto. Infelizmente a safadeza fala mais alto. E tem passado de 80 decibéis ultimamente.


 12 era jardineiro. Tinha na face as rugas do titã Atlas. Uma infância e juventude tão miseráveis quanto  de Dois. Sua miserabilidade traduzia em suas roupas ordinárias de cores cáqui e outros tons sóbrios. Tecidos pesados, como suas mãos, como seus pensamentos. Não conseguia falar muito. Ouvir, ouvia, mas ignorância alheia lhe doía aos ouvidos. Por duas vezes na semana, ia à casa de Um para tratar do exterior da propriedade. Não lhe davam nem um copo d'água, nem mesmo Dois. Bebida da torneira mesmo. Estava acostumado. Não perguntava à Deus das agruras  da vida, simplesmente passava por elas sem se queixar. Era honesto, apesar de não precisar. Era sábio, apesar de também não precisar sê-lo. O tempo foi duro com sua pessoa, mas não devolvia ao mundo seu pesar. Digeria tudo e devolvia em jardins ornados, paisagens deslumbrantes e flores raras. Flores que não cobrava para colocar, colocava-as de graça, só recebia pela poda e corte da grama. Certamente devia ser um artista, pois aformoseava seus canteirinhos com delicadas poesias florais.
Um ganha pão extraído de todo esterco que levava para o labor diário, cavucando a terra, lama, suor... Tinha  direito ao sono dos justos, pois quando terminava sua alma estava limpa e tinha a plena sensação de dever cumprido. Só não conseguia dimensionar grandiosidade de sua obra... que ficasse para os outros.
Doze só não gostava da corrupção do homem. Não tivera ensino religioso, muito menos gostava de religiões. Detestava-as todas. Porém seguia seus mandamentos sem saber. Passou fome e não roubou, teve ódio e não matou... simplesmente nasceu assim... sábio e bom.

 Três estava independente. Com dinheiro, com amantes e com poder. Era o ápice de seu proselitismo feminista. Girl Power. Era preciso agora colocar seu nome na Capital. 
Só era paradoxal trair seu ex marido sem o menor pudor e ainda acusá-lo de seu crime ao mesmo tempo que estava livre para trair o seu partido, mas não conseguia (?!). Por que?  Sua perfídia conheceria algum limite? Ou era apenas um momento de tédio?
Vai saber.

-Como pôde 3 ter sido tão cadela?!
A misoginia retumbava no ancião, o Senhor... Vossa Santidade.
O rosto sereno e o bigode bem aparado. Um rosto de "tudo bem".
Tudo bem, mas ele não esquece, o partido não esquece, os políticos em geral não esquecem. São como os juízes... rastejam para se vingar, comem poeira... se vingam calados, mas se vingam bem. 'Tudo bem'.
Quanto mais asquerosos melhor. Aqueles que têm nojo não querem se misturar, melhor para eles, pois quem não põe a mão na merda será inevitavelmente governado por um. Daí não serão as mãos, será então o pulmão, o ar, a tevê, a internet, sabe-se lá mais o que?!
Três sabe lidar com eles. Partindo do princípio de que sabia a arte da escatologia, bastava uma luvinha de borracha e mãos-à-obra! De moedinha em moedinha fazia sua caminha. Pecunia Non Olet: O provérbio mais sacrossanto dos brasileiros. Todos sem exceção. Todos. Todos são Três. Todos nós somos Três. 3 somos todos nós.
Talvez para o mais velho deles 3 fosse uma cadela, mas para a cadela... era terça-feira.

Plágio!



 

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Capítulo XI - Eleva-te, sustenta-te...

Onze é um atrás do outro. Atriz, alta, amável... fileiras de homens em seu encalço (um atrás do outro). Trabalha em novelas, atua no teatro, faz comerciais de imóveis e ganha muito bem para isso. É queridinha dos programas dominicais, daqueles de fazer chorar.
Tem uma pequena queda por drogas, mas nada que arranhe sua resplandecente beleza.
Carrega em seu currículo dois casamentos, o primeiro com um conhecido diretor de novelas (filho A) e após o biênio, um banqueiro (e mais outro filho, B). Dois anos já o suficiente.
Uma outra quedinha por pílulas e barbituricos também não é o suficiente. É preciso coroar a formação, é preciso garantir a aposentadoria: um político.
11 finge não ver o bissexualismo de 7, afinal já saira com gays. Sete comparece, Sete é proteção, Sete é poder. E não existe tesão maior do que poder.
Doze, produtor de filmes, por exemplo, nunca a comeu. Tomou-a como protégé. ensinou tudo o que sabia, acompanhou seu crescimento artístico, mas nem um mísero beijinho. Sem poder sem tesão, simples.

Cinco despedaçou-se quando descobriu. Oitenta e Cinco e Um, juntos! Aquela puta!!
Sentia o sangue negro do ódio percorrer-lhe os vasos capilares. O
animus necandi vir-lhe à mente. Ao mesmo tempo que apercebia-se de sua insignificância... "sem poder sem tesão". Era um secretário, recebia ordens, subalterno, que mulher gosta de um servente? Doía demais, mais do que podia aguentar.
Mas era um omisso, um fraco, um frouxo. Tanto tempo no partido, dividido, dominado pela máquina, já não havia o que fazer; ir para os cantos e lamber as feridas, gritar para que quiser ouvir seu pequeno odiozinho contra Um. Podia aguantar sim. Todos suportam, por que não suportaria? Tinha algo a perder, sua ira pequeno-comunista. Suas bandeirinhas sociais, sua pequena corrupção estilo "fins justificam os meios", seus pequenas hipocrisias (idiossincrasias).
-Tolerarei pelo partido!
Era uma boa desculpa. Que babaca.

Um sai da sala choramingando. Teatro. O importante é a grana. Garantir a campanha.
Nova telefona para sua mulher (o maior metro quadrado de jóias do Bra'Z'il):
-Querida, estou indo pra casa, precisa de algo?
-Queijo de Alce.
-Algo mais?
-Não.
-Ok.
É assim, mais afetuosos impossível, apesar que soar melhor a muitos casamento por aí.
Solicita o ajudante de ordens, ordena a compra do moose cheese e aproveita que este faça uma cópia duma fita que acabara de gravar. Só pra garantir, "o seguro morreu de velho", sempre dizia.

Cinco carregava um pacote pardo, todos sabem o que um papel pardo significa. A humanidade é idiota. Caga na água que toma, nem os animais (fora os peixes) fazem isso. Documentos essenciais num papel pardo.

10, mais calmo: -o que realmente aconteceu?
6, -9 é um líder nato, pode-se odiá-lo, mas é difícil questionar seus métodos.
10, impaciente: mas o que aconteceu p...?!
6: uma garantia, arras, um sinal... 9 quer ter certeza que não perderá. Ele nunca perde. Precisa de um dossiê, ao invés de ir ao mercado comprar um prefere fabricá-lo. Da mesma forma, expõe que está no comando da situação, é o macho-alfa agora. He he, uma pequena tacada para diversos coelhos. Um verdadeiro mestre.
10, um tanto enojado: -jamais faria isso, é como vender a alma pro demônio. Esse cara é o verdadeiro belzebu.
6, sarcástico pela ingenuidade do estagiário: duas lições meu caro jedi, a primeira, em política não existe o advérbio "nunca"; em segundo lugar, já vendestes... Avise o velho. Diga que deu tudo certo.

caaaatiiiiingaaaa.
Nuvens de poeria e espinhos.
Não é deserto, mas também não é cerrado. É errado, é certo.

Não é por ser o ciclo da seca, muito menos pela miséria. Dois odiava água parada, água barrenta, sinônimo de doenças... A molecada entrava, mas tinha tino de perceber o que viria. Todos os onze irmãos barrigudos, inchados, infestados de vermes. A esquistossomose era severa naquela paisagem áspera, era rezar para não pensar.
Um dia se compra um sonho para o paraíso. Num manjadíssimo pau-de-arara. A caralhada em caravana, rumo à terra do leite e do mel.



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Capítulo X - No Caminho do Cisne

No mesmo país, duas estações. O norte e nordeste, úmido e calorento. Sul frio, sudeste temperado. Centro-oeste seco e quente. No lago gelado cisnes (de-pescoço-preto); tão leves que parecem papel sobre a linha-d’água. Exceto pelo vento, que diminui a sensação térmica ainda mais. Ondulando um tantinho o imenso lago no suleiro parque. Num banquinho de madeira uma solitária figura fuma seu lenitivo cigarro. Quem não fuma não entende a maravilha do tabaco. A fumaça no frio acalenta os pulmões, assim como uma leve sensação de euforia e bem estar invadem cérebro. Tudo fica bem, os pensamentos ficam mais claros, tudo é passível de ser administrado. Os neurônios parecem mais vivos do que nunca. Como é bom...
Sete, encapotado em seu sobretudo preto, fuma cigarros light. Precisa mexer as peças, está particularizando uma estratégia. Perdeu seu candidato, vai precisar alugar outro (Um). É pouco. Existe outra ameaça também. A candidata do partido do meio-ambiente. Sim... perigosíssima. Candidatura de última hora, rápida catalisação nas pesquisas. É preciso fazer algo...
Liga para Três.

Após uma campanha maravilhosamente bem sucedida, Cinco era secretário da cultura. Respondia diretamente ao seu “amigo” e recém eleito Um. Nada era impossível, um rolo compressor, uma força que dizia à montanha: - afasta-te! E ela se desfalecia.
A honestidade era o lema, era a lei. Eram mais que os outros, eram diferentes, eram o novo, eram os super-poderosos (os foderosos). Tinham suas estrelas na agremiação, Um, por exemplo; suas foices que ceifavam os fariseus do mandato anterior (que eram como cães deitados nas manjedouras dos bois. Não comiam, nem deixavam os bois comer),por fim, os martelos, como Cinco trabalhavam como burros de carga no engajamento das “causas” que chovessem em seus jardins. Fé cega.

Nove em meio aos seus, hum..., asseclas ditava as próximas medidas. Desoneração fiscal, reclames de repasses e super-faturamento na obra do anel viário. Só se põe o primeiro cimento, quando todos os pingos estiverem nos is. Era impressionante sua capacidade intelectual, os planejamentos, as diretrizes, a frieza e inabalável calma ao lidar com os problemas. Na dialética de 9, só cabia contra-argumentar monossilabicamente (hum), no máximo, amém.
Chegam à távola redonda, Seis, Dez e Um, cumprimentam todos os presentes pelo nome (o egípcio livro dos mortos foi de grande utilidade aqui). Nove, somente acenando, analisa, prepara sua estratégia:

Seis, começando: -Senhores, acho que não é mais segredo para ninguém aqui que estamos em campanha , e Um é nosso candidato.
Nove: -E qual seria o motivo de tão cordial visita, se não para pedir dinheiro.
Não tem papas na língua, é bom em constranger e sumarizar o assunto. Daí sua grande capacidade para negócios.


Um, em retomada: -estamos dispostos a ceder.
Nove, à Jaba, The Hutt: o quanto?
Um: 25% das licitações. 100% da merenda escolar.
Nove, muito bem informado por sinal: -Não vai recuperar o prejuízo que deu ao teu partido. Estamos com 365, a candidata do meio-ambiente. Desista vá embora.
Seis, nervosamente testa antes que tudo se perdesse: -Senhores... senhores calma. Acho que podemos chegar a um meio termo. Não podemos ceder totalmente a construção civil, realmente temos esse prejuízo. Todavia, garantiremos a merenda, com exclusividade (frisando exclusividade). Em um ano podemos reerguer para a campanha presidencial. Existe um bônus senhores... é... sim, existe um bônus... os medicamentos do sistema de saúde. Retiraremos as câmeras, e colocaremos nosso pessoal. Os medicamentos serão exclusivos de Vossas Senhorias, assim, que recuperarmos o dano, ruas, casas populares; porém só o suficiente para encostar no limiar da lei de responsabilidade. O valor de V.Sas. é X!
Nove: -hahaha, muito pouco.
Seis: -Como!? Demos tudo, é mais do que o suficiente. O que mais você quer?
Nove: -Fidelidade.
Seis, Um e Dez, olhando uns para os outros, sem entender.
Nove, em continuidade: -quero fidelização, certeza absoluta que mais pra frente não serei passado para trás.
Seis: -... tem a nossa palavr...
Sem conseguir terminar.
Nove, peremptoriamente: -Senhores, saiam! Um fica.
Todos os asseclas encolhem seus ombros e como cachorros colocam seus rabos entre as pernas caminham para fora.
Seis entendendo o que está para ocorrer, começa a tremer.
Dez, em cochicho para Seis: - o que vai acontc...
Seis: -cala boca! Vambora.
Um: -onde vocês vão?
Seis: -desculpe, mas vai ter que passar por isso. Nada aconteceria se não fosse culpa sua.
Um: eu... eu... como pode?!
Seis, encostando a mão no ombro de Um: -meu caro, ou é isso ou é a morte.

Seis praticamente sai empurrando Dez para fora da sala: -vamos esperar na rua.

Um em desespero vê Nove ligando uma câmera: -Vire-se e encoste na mesa Um!
Assim que a câmera é ligada Um começa e ser sodomizado.

Quatro, dentro do muquifo de Cinco:
-Não podemos deixar isto acontecer, leve os documentos para Sete.
-Pra que? Não quero, vamos esquecer.
-Meu, meu pai disse. Disse que você tinha a papelada. Só Sete pode deter Um nesse momento.
-É jovem, e é idiota. Vá.
-Olhe pra você! Que decadência, que porcaria. Poderia ter tudo e está aí, caidão. Fazendo papelzinho pro partido, jogado pra escanteio. Em troca do que? Ideologia de m...
-Cala a boca! Sabe de nada.
-Direi a Sete, que aceitou, é pro seu bem.

Quatro saí. Sete lhe dera o caminho das pedras, agora é só esperar acontecer. A raiva só aparecerá quando Cinco vir Um na tevê, todos os dias no horário político. O coração dos homens é sempre igual. O orgulho e a vingança.

Quem conhece o pai e mãe pode ser chamado de filho de uma prostituta?

Acho que não.

Foi de repente. Cinco adentrou o gabinete de Um vislumbrou Oitenta e Cinco de joelhos ante 1. Foi como uma chibatada no músculo cardíaco. Com a testa fervendo, nada mais importava, o que iria fazer lá, o que ia falar... saiu correndo.
Todos os pensamentos atravessando suas ideias, as lembranças, o que achava que sentia, o que achava que sentia por ele, o orgulho, o desespero, mas principalmente, a impotência. A maldita sensação de que não é bom o suficiente para dar tudo o que 85 precisaria. A fidelidade, a paixão com que adentrou na causa... Nada a impressionara? Sou pior do que Um?
Quando não se aceita ser corno é muito pior, pior porque reflete em todos os atos da vida civil. Tudo fica uma b...

A estrela se apagou. Cadente... caiu.

Aproveitando a saída de Um, Seis e Dez, Dois e Oito aproveitaram para se encontrar no quartinho de empregada. Abafado e úmido, era perfeito para um coito vespertino. Após o ato em si, 2:
-Como você conseguiu estes músculos?
8: -De tanto puxar a carroça.
2: -Puxa muito, meu gato?
8, com seus poucos dentes: -Às vezes o dia inteiro (com um certo orgulho).
-Muitas vezes sem comer nada.
2 impressionada: -E como você agüenta?!
8: -Com isto.
Saca um saco plástico com pequenas pedrinhas brancas. Dois se assusta:
-Meu Deus, que que é isso?!
8: -pedra. Pra tirá a fome, pra trampar...
Dois cada vez mais assustada:
-Num quero isso aqui não. Tira isso daqui.
Oito, dando a menor pelota, tira um cachimbo do bolso e queima a primeira pedra (barulhinho típico). Vira o cachimbinho para Dois, nervosamente:
-Se não der um aqui te encho de porrada! Fuma esta m... Se fumar uma só eu saio.

Só que uma só já é o bastante. Mesmo que não se trague, o calhau traz a euforia e uma pequena sensação de que tudo-pode, tudo-se-faz... um certo bem-estar. A primeira é sempre a mais inacreditável, é a melhor....

Sete termina seu cigarro. Olha o relógio e pensa: -ela não vem. Quando se levanta vê que ela está vindo em sua direção. Um porte elegante, como um cisne na lagoa. Sua boina, seu casaco de pele, mãos finas e olhos extremamente azulados. O vento espalha um pouco dos seus louros cabelos, numa valsa a dar sentido à natureza.
Quando ela chega, o cumprimenta com três beijos no rosto. 7 está mais leve, a beleza alivia a alma. Isso é uma coisa espirituosa dos giletes. Eles se dão bem nas duas direções...

Onze é estonteantemente linda.

Ю

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Capítulo IX - 999

Não era música, era massa sonora ruidosa. Coisa pestilenta. Reproduzida por um acordeão, triângulo, teclado (bem brega por sinal) e outros instrumentos. Uma moça usando top(zinho), rebolando e expondo a gelatinosa pança para sua platéia. Abusava dos agudos vocais até o estouro dos tímpanos dos mais incautos.

Seu par de canto, não menos ridículo, tem o cabelo alisado à base de muito hair tong, mais conhecido nessas bandas como "chapinha". Só mesmo muito manguaçado pra aguentar o ambiente catinguento pelo excesso populacional. Uma mescla de cigarro, pinga e suor. Infelizmente para muitos a única fonte de lazer que cabia no orçamento doméstico.

O mulambo cruza uma floresta de pessoas com o fumo na mão. Incrivelmente consegue se esquivar de todos os transeuntes na pista até chegar ao balcão. Pupila dilatada e o branco dos olhos tão vermelhos quanto os néons de bordéis locais. Pede mais uma, a décima, mas ainda está de pé. Puxou muitas viagens com a carroça durante o dia.

No recinto, uma mulher encorpada, dentro do seu vestido de pano, dança fastiamente seu forró. Parece não estar muito interessada no seu par e sai para pegar mais uma bebida...

-Oi, você não é moço da carroça?

Ele responde: -

-Ãn, mmm mmm (tradução: é, sou).

Ela insiste na conversa: - E o que o Senhor tá fazendo aqui?

Ele retruca: -Tva, é mm eu luuugrrrr sssa irrrr... (Estava, garbosa mulher. Este estabelecimento é de minha magnânima preferência).

Dois percebe que Oito está prestes a cair, carrega-o em seus grossos braços e vai pra pista.

Agarra-o e começam a dançar.

Ele: -kkk qãn bmmm kkra thá? (Por que me carregas em teus membros superiores. Por onde andaria teu exordial companheiro?).

Ela surpresa por ele ter reparado: -Vamo dançar! Vamo dançar! Ele deve tá caído por aí.

Oito volatilizava o álcool em velocidade sobre-humana. Naquele momento os dançarinos, a zabumba, sanfona e triângulo eram um só. 8 revelava-se ágil nos passos e firme na dança. Conduzia 2 como só se houvesses somente os dois, ou melhor, como um só.

A poeira levantava, as horas passavam, pessoas iam embora, a banda há muito deixou de tocar e mesmo só com o som do DJ, o momento congelara-se lá. Dois até pensou um pouquinho no homem quem dançara anteriormente -Ele já deve ter ido embora-. Não gastou muito tutano com isto.

Não é preciso dizer que pouco antes do amanhecer ambos estavam num dos motéis econômicos da região. Mais um dos notórios coitos à brasileira [sem proteção] (quando essa gente vai aprender?!).

Dois retornou para sua moradia esfuziante. Oito voltou pra qualquer lugar. Onde deitava sua cabeça era seu lar.


X


Cinco acabara de fazer amor com Oitenta e Cinco. Esta se levanta pega as roupas e se apronta para sair. Ele um tanto incomodado com esta reiterada postura indiferente pergunta:

-Por que você faz sempre isso, por que não fica um pouco mais comigo?

Ela ríspida: -Ué, é meu dono agora?!

Sai batendo a porta.

Cinco aos poucos começa a entender como as coisas são. Seu coração apertado e angustiado já processavam a informação de que não é mais a prioridade de 85. Há muito já notava. Acabara-se a adrenalina, a pegação, as tardes antes das aulas. Tudo estava intensamente rápido, frio, vazio.

Não tem muito tempo para seus anseios. Logo deveria encontrar-se com Um para a reunião do partido. Cinco passou os últimos cinco dias elaborando o jornal interno e circulares. Seria um importante passo profissional, afinal quase todos os jornalistas do país de alguma forma eram ligados à ala que pertencia. Queria estar neste momento no lado vencedor e Um era uma estrela em ascensão.


X


-Um é uma estrela em total decadência. Explicava Seis ao estagiário, 10: -Teoricamente não vamos usar o dinheiro do partido na campanha, um terá que suar para financiar sua jornada rumo à Prefeitura.

-Mas como ele vai conseguir tanto dinheiro, depois de tudo? Seis, um tanto atarantado pela pergunta inesperada: -De Nove pode-se esperar tudo. Provavelmente negociarão cargos na administração direta e no Tribunal de Contas Municipal que criaremos.

Dez, com o fulgor da inteligência da juventude, porém ingenuamente: -Mas não é proibido pela Constituição no seu parágrafo quarto do artigo trinta e um?

Seis e Um começaram a gargalhar com tamanho disparate como não faziam há tempos.

Desconheciam a palavra proibido. Acho que também desconheciam a palavra Constituição.


X


No coração financeiro da capital, Nove reunia-se à nata metropolitana.

9 é diferente de outros presidentes de federações de indústria. Tem pedigree, é bisneto de italianos que chegaram da imigração, o bisavó no começou como industriário e rapidamente subiu, chegando a ter sua própria indústria. O avô deu continuidade, aumentando o número de fábricas; o pai veio e modernizou o parque industrial, sofreu com as "grandes greves" da "grande metrópole". Nove praticamente sumarizou o veni, vidi, vici das gerações antepassadas. Sua liderança é inconteste no meio. Entrou e saiu da política várias vezes para defender os interesses do seu estado (entenda como quiser), sendo o Senado uma de suas casas favoritas.


Entretanto, sofre de um pequeno desvio. Uma moléstia de família que seus progenitores também não conseguiam disfarçar: a concupiscência. Nenhum mesmo... o bisavô pelas concubinas, o avô pelo jogo, o pai pela erythroxylum coca e 9 por sua pública compulsão sexual por homens.


Por saber lidar muito bem com o poder, a ala religiosa não consegue detê-lo, por isso aceitaram a derrota e tentaram contemporizar. Era melhor juntar-se a ele, pois sua ira é colossal, não admite traições. Carreiras brilhantes já sucumbiram em apenas uma ligação sua às pessoas certas. A primeira coisa que se ensina ao imprudente antes conhecê-lo: é que não pode ser contrariado. Ainda assim, sua bênção é prestigiosa, apesar do alto preço cobrado em troca. Às vezes alto demais.


X


Seis seguia uma instrução cuja sugestão fora de sua autoria. É jocoso como nossos chefes nos tomem as ideias como se deles fossem. É como no Brasil que tem sua biodiversidade explorada, copiada ou simplesmente pirateada e depois somos obrigados a comprar mesmíssimos produtos que por direito natural já eram nossos!

Após instruir Um para a reunião, Dez, o estagiário, perguntou: -E o que vai acontecer nessa reunião?

Seis após um pequeno momento de reflexão, disse: -Realmente não sei.

Sentiu que pela primeira vez poderia perder o controle da situação. Nove era onipotente, onipresente, e onisciente nesta parte do país. Um deveria tomar muito cuidado com as palavras, bem como deveria aceitar qualquer termo, encargo ou condição que lhe fosse imposto. Era muito dinheiro pra recuperar em apenas dois anos de mandato. A eleição presidencial era uma constante. Era preciso fazer 666 virar 999, a qualquer preço.


X


Onze ainda não entra na história.


sábado, 19 de setembro de 2009

Capítulo VIII - Nas Tetas da Serpente

"Pátria Amada, me segure em seus braços;
República Federativa do Bra'Z'il;
Amada mãe dos patrióticos laços;
Dê-me tua teta, sinto teu abraço;
Sirvo-te assim como me serves;
Leite para todos os bra'Z'ileiros;
Seus bezerros, seu potros...
Só que para uns mais do que para outros".

Prostrado na cama, estendido no sentido longitudinal, como a um ofídio... Cinco. A televisão ligada, (Uma mulher cheia de jóias e um tailleur vermelho, falando, gritando, "nos dê seu dinheiro e abençoaremos suas dívidas". Não passava mais de dez segundos sem parar de proferir a palavra dinheiro. Incrível) apenas por estar ligada. Ar abafado, má ventilação. Umidade nas paredes e no teto. Literalmente uma pocilga. Magro, pernas e braços finos. Calça social e camisa, dobrada um pouco depois nos punhos. Pesados óculos, lentes com anomalias no referencial de Gauss. Nas estantes, antigos livros que interessariam somente a um campo da ideologia política (Teologia da Libertação, Anarquismo, Social-democracia e Marxismo-Leninismo). As orelhas involuntárias deixam ainda mais caótica a aparência do amontoado de papéis, documentos, jornais, propagandas, lambe-lambes, flyers e demais registros gráficos. O inferno do homem, paraíso dos ácaros, sentença de morte aos asmáticos. Nada disso importava.
Demônios no coração deste Ser.
Sua ontognoseologia não ia nada bem. Miguel Reale martelava-o bem fundo no crânio. Por anos, um sinuoso Winston Smith lidando com o excesso da ausência de toda a opressão. Uma sociedade que não conseguia apodrecer o suficiente para oferecer-se como solução. Era impossível retirar o branco e preto do cinza. Maldita favila na atmosfera.
Por anos militando por um sonho que há muito já se desbotou. Qual não foi o continuísmo? Para que, para quem?
É duro perceber que toda a sua vida foi uma imensa inutilidade.
A guerra não veio, a revolução não chegou, Che não ressuscitou.
Tudo o que tem agora são estas provas velhas em suas mãos. Mãos magras veiras, rugas na testa e pescoço, cabelos brancos e outros mal tingidos. Cara de velho. Bolsas sob os olhos, carquilhas nas bochechas e pelos nas orelhas. Retrocontagem para a extinção.
Se essas informações caíssem nas mãos da imprensa? Mãos que servi e agora me esmurrariam, mãos que bati quando me alimentaram? A quem recorrer?
Que existência mais maldita.

O jovem cinco neste momento tinha todas as certezas do mundo em sua mente. Agora sabia quem era, onde estava o que fazia e pra onde ia. Achou seu nicho, a editora e a gráfica de um nascituro partido, escrevia textos, panfletos, fazia traduções e colaborava com o editorial do jornal. Um, seu mais novo companheiro, estreava como o mais novel político daquele movimento, sua primeira eleição. O líder incumbiu 5 de preparar os discursos de seus candidatos. Ao lado de Oitenta e Cinco não havia impossível, exceto um pequeno detalhe que incomodava, mas de tão pequeno era bom não se importar, o seus pares não gostariam que aparentasse esta emoção pequeno-burguesa.

-Cinco tem os originais.
-Mas que originais?! Perguntou Sete.
-As casas populares, Um. Lembra?
Sete não conseguia esconder sua felicitação. Só imaginava quantos favores conseguiria com esta prova nas mãos. Perguntou:
-Cinco, né? O que ele quer em troca?
-Olha, Sete, o cara é meio idealista.
-Todo preço tem seu homem, já achamos ele não foi? Agora só falta o mais fácil. Respondeu.
Quatro começou a ficar nervoso, não via seu quinhão na questão ser comentada:
-E a minha parte?
-Qual parte? Gracejou Sete.
-A minha p*rra! Três!! Quero que Três se F*da!!! Explodiu.
7 não se impressionou. Sangue gelado, anos acostumado com a bandidagem. Analisou 4:
-Sei o que Três fez com você. Mas sua parte não se recuperará assim (estalando os dedos). Seja paciente, pressinto que algo bom virá para nós, quero dizer, se você estiver comigo...
Quatro gelou. Sem palavras. Sete foi lentamente massageado seu ombro aos mesmo tempo que os olhos do rapaz arregalaram. Assim que o carro parou este saiu correndo. Sete:
-Que pena, é um belo rapaz. Falou para o motorista:
-Ligue pra Scheila, ela tem trabalho hoje. Motorista consentiu e começou a fazer o telefonema.
Scheila não tem número, ela só é mulher... da cintura pra cima.

Sete está no centro da metrópole. Precisa averiguar um QRU (ocorrência) numa das boates locais, briga. Não era nada, as malditas p*tas não conseguem se controlar no pó e saem estapeando umas as outras. Brigam por qualquer coisa, clientes, dinheiro, drogas. É tudo muito chato e estressante. Passa pelos travestis fazendo ponto embaixo da grande obra sombria do grande político 1.000.000 (um milhão) -porque nunca roubava menos do que este valor, roubava mais fazia-. É ótimo assim. Emparedou todas aquelas meio-mulheres, todos grandes e disformes. Tinha um deles, acho, não, tenho certeza, deve dinheiro a Sete. Os parceiros de 7 riem, embora ele não ache graça na situação. Dinheiro é dinheiro, é a sopa prefacial da humanidade e Sete quer ser humano. Desfere um chute na bunda do travesti. devedor. Agredir um travesti é uma dupla pena. A primeira é menor, é o hematoma. Passa; o Segundo é muito pior. O silicone deforma e parece goma caída. É para sempre, não tem conserto. Deformado, não tem clientes, sem clientes não tem dinheiro, sem dinheiro... não preciso nem dizer. É perpétua, é cruel, cruel demais, seria melhor a morte.
7 faz seu recolhe. Odeia gays e travestis.
A noite segue seu turno.

O "estagiário" chegou, Seis manda o motorista buscá-lo no aeroporto.
Um estagiário no jargão deles não é o mesmo que conhecemos. É uma forma carinhosa de se referir aos aspirantes na política. Seis já foi um. Foi treinado e doutrinado pelo mais velho, o mais forte, o mais importante. Resistiu a inúmeras batalhas no Congresso, CPIs, intrigas, chantagens, investigações. Passou incólume por todas. Seu bigode manteve-se intacto todos esses anos.
Dez chegou, um moleque. No calor da parca existência (Que mais bela essência).
Já conhecia Um, dispensavam apresentações.
Seis perguntou, mesmo já antevendo a resposta:
-Por que te mandaram aqui?
Dez: -Porque é o melhor entre os melhores.
Seis sorriu:
-Então Dez, te prepare, hoje vamos fazer chacoalhar a árvore do dinheiro paulistano.
Odiava São Paulo com todas as suas forças. Se algum dia fosse presidente, faria o estado paulistano chafurdar na miséria, na violência, na corrupção, na sujeira e ser reduzida a uma caatinga indigente e dependente de caminhões pipa. Que sonho maravilhoso. Os paulistas e paulistanos mendigando no Planalto, implorando migalhas... hehehe. Estado maldito.









domingo, 13 de setembro de 2009

Capítulo VII - Seis Graus de Separação

As sereias cantavam;
Alegres se fartavam;
O sol refletindo nas águas;
Sob as pedras da enseada;

Tão belas, quanta formosura!

Risos, sensuais brincadeiras;
Envolvendo as caudas reluzentes;
Tez como delicadas macieiras;


Banqueteiam neste momento;
Sob a sombra das aves marítimas;

Cada deslumbrante movimento;

O escarlate entre os dedos;


...do sangue do destroçado marinheiro.

A reunião com a cúpula da universidade, governo do estado, polícia militar, sindicatos e estudantes fora um sucesso. Somente os caputs falaram, entrementes todos estavam bem assessorados. A participação de Cinco foi ativa, apresentava contra-argumentos, réplicas, tréplicas, avisava dos embustes. Foi perfeito. Seis graus de separação. O líder não levou apenas seu causídico, lá estava também Um, que era mais novo que Cinco. Sete também estava lá, era o capitão da PM (mais jovem e com muito mais sonhos).

Após a reunião a greve chegava ao seu fim. Cinco que mal fora apresentado a Um, agora estavam devidamente cortejados, até pareciam amigos de longa data. O líder estava feliz pelo desfecho e o sindicato conseguira o aumento almejado. Haveria uma festa em homenagem pelo fim das manifestações.

Bat-macumba, Anamauê...

Sete estava inconformado. Achava que o Estado era muito mole com os subversivos. Sentia que a polícia há muito já perdera o brilho, não via-se realizado ali. A sociedade mudara, os planos mudaram e a polícia ainda vivia nos idos do golpe. Acontecia algo no ar, os ventos não balançavam mais as velas, mas carregavam os barcos. Aquela violência tão necessária até pouco tempo parecia neste instante um grande desperdício humano. A agressividade das pessoas, dos próprios bandidos crescia, entretanto a reação policial ainda mais hostil, parecia ineficaz. Tudo era inútil na corporação... Sete percebia-se obsoleto.

O impensável acontecera. Pouco depois do fim da greve na universidade, a própria corporação tentou a sua. Baixos salários, péssimas condições de trabalho, mau treinamento dos recrutas, alta mortalidade nas operações...; Ainda com resquícios de seu idealismo, sua obediência, Sete não aderiu. Muitos dos seus colegas, inclusive amigos foram às manifestações. No fundo, torcia para que desse certo, para que conseguissem. Mas tudo deu errado.
Desprotegidos pela CLT por serem estatutários, os policiais não podiam buscar a guarida da Justiça do Trabalho, o dissídio coletivo seria julgado pela Justiça Comum. Com a relação promíscua entre a justiça comum e o Poder Executivo Estadual, a greve foi decretada ilegal e foram todos obrigados a retornar a seus postos. A retaliação do Governo veio em seguida, transferindo boa parte dos grevistas para postos distantes de suas residências. A situação era insustentável, não obstante ganharem mal, precisavam gastar ainda mais com conduções. Muitos não aguentaram e pediram exoneração. Procuraram no setor privado melhores condições.
Com a limpeza feita pelo Governo Estadual, 7 como não aderente, subiu de patente logo em seguida. Um parte de si estava feliz, outra corroída.
Pouco depois, numa operação dentro de uma grande favela, um amigo próximo foi barbaramente fuzilado (peneirado para ser mais sincero) pois sua viatura não deu partida na hora do contra-ataque dos traficantes. Todos policiais, civis e militares da invasão conjunta precisaram dar vazão pois não esperavam tamanha reação, menos o grupo do seu colega 7880; seis que ficaram apara trás morreram. Mas isso não era tudo. Não havia coletes para todos, ou algumas armas falhavam ou munições eram de má qualidade. Com este final melancólico, a greve lhe doía no pensamento.
Passado alguns meses, assistindo a história se repetir, no vestiário da corporação Sete decretou:
-Amanhã eu entro pra política.
Todos riram.

Seis estava com Um quando recebeu uma ligação do seu coronel, seu mentor, o líder supremo do partido:
-A macumbeira é muito forte.
Seis, em tom sóbrio: Por que senhor?
-Cento e vinte um, calibrou demais e está no hospital. Nosso caminho está livre. Foi melhor do que esperávamos, foi como a macumbeira falou.
Seis, fingindo não entender: como assim?!
-Ahhh Seis, não seja tão tolo comigo. Fiz meus contatos, prepare Um para uma reunião com a cúpula da indústria & comércio paulista, aquele pederasta do Nove nos garantiu apoio irrestrito e o principal: dinheiro.
Seis: Quanto custou?
-As obras. Quer exclusividade...
E complementando, como se tivesse acabado de se lembrar:
-Ah, leve o "estagiário" com você. Está na hora de você ter um pupilo.
Seis:-Não entendo.
O líder, um tanto impaciente:
-Apenas leve o moleque com você!
Seis contrariado: - Sim, Senhor.
-Mantenha-me informado.
Mais um
"Sim Senhor" e encerram a conversa.

A casa de Um fica num dos melhores bairros da metrópole, Jardim...
Um, Dois e Seis estavam no quarto separando as roupas para campanha. 6 centralizava tanto o poder em sua mão, que fazia às vezes também fazia o papel de
personal stylist. Mandava Dois pegar aquela ou esta roupa, bons ternos, elaborados por excelente alfaiates. Muitos italianos, os melhores.
Dois admirava os estilo de Seis, seu charme, seu porte imponente, forte e centrado. Um rosto com traços marcantes, até poderia ser um galã de novela. De repente, Um olha pela janela:
-Dois! O homem da reciclagem chegou, leva o papelão pra ele!
Seis, consente:
-Pode ir Dois, leve o papelão, esperaremos aqui.
Dois sai, Seis para Um:
-Está preparado para a maratona?
Um: dependo disso pra viver, não?
Seis trasgueando pega uma cueca suja no chão e joga na cara de Um.
-O que você está fazendo?!
-(Com um leve sorriso sarcástico) Tá na hora de se acostumar a beijar as criancinhas remelentas. Comece com isso aí. Vou pedir para Dois preparar um delicioso sarapatel pro almoço, garanto que vai comer coisa pior quando subir o morro.
Um, não responde. Faz uma cara de contrariado, não esperava passar por tamanha humilhação. Odiava beijar as crianças liposas que os favelistas traziam. Conformou-se.

Já meio tonto de tanto beber, Cinco participa de uma roda de discussões com as cabeças do movimento. Um também está lá. Cinca acha-o bastante diferente dos outros, pois Um, apesar de cursar engenharia na *oli, tem tino político. Não é muito inteligente, nem tem muita cultura, percebe-se logo; mas sua tempestade e ímpeto são cativantes. Tem habilidades para lidar com todo tipo de pessoa e é protégé do líder. Começam uma roda do
quimbundo makaña. Cinco inexperiente nessa área começa a rir e a enrolar a lígua. Percebendo, o líder pede vivas para o Companheiro 5, por seus excelentes serviços à causa. Mas Cinco só tem olhos para Oitenta e Cinco, seu coração palpita. O líder percebendo a situação, cochicha no ouvido de 85 e esta levanta e leva 5 para a fora.
Cinco ri, está feliz apesar de não compreender exatamente o que se passa.
Oitenta e Cinco dá um beijo em Cinco e este retribui. Os músculos relaxam, outros enrijessem. Não se falam.
85 deita 5 no chão. Sua sereia começa a baixar sua calça ao mesmo tempo que levanta a saia e puxa sua peça íntima para o lado. O marinheiro é devorado. Seus nervos convergem para seu sexo, a fricção torna-se insustentável e o calor no ventre se esparrama lentamente. Milhares de Cincozinhos nadam pelas paredes internas de Oitenta e Cinco, mas morrerão, pois ela utiliza-se de métodos contraceptivos. Melhor assim.
Ela tem que ir. Ele se levanta e vai para o outro lado, também tem que ir pra casa. O THC e do etanol já começam sumir do organismo. Mas a euforia é natural, não precisa de nenhuma substância para sentir-se assim.
(Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás).
Tudo seria em função da 'revolution'.

Sete chega ao hospital. Um tanto colérico, mas sem apresentar sinais exteriores. A noite fria lhe obriga a usar um sobretudo negro, pesado. Seus passos ecoam no hospital, vai direto ao elator. No espelho do elevador distingue-se seus cabelos negros, crespos, levemente grisalhos; porte alto e atlético, pois jamais perdera o hábito de exercitar-se, mesmo fora da corporação. A larga mão aperta o botão do andar, assim como a luz da máquina elevatória reflete em seu enorme anel de ouro. Mão esquerda, mãos com suas veias saltadas e um tanto enrugadas, entregando a idade. Acha rapidamentne o quarto 2331, onde Bispo 121 está.
Toc toc.
Um voz tíbia:
-Pode entrar.
-Cento e Vinte e Um.
-Sete.
-Como está?
Bispo 121 põe o fito nos olhos de Sete, mas abaixa logo em seguida. Vergonha:
-Bem, acho.
A voz lhe entrega, não está nada bem.
-O que realmente aconteceu?
Bispo Cento e Vinte Um reluta, mas ao se lembrar no investimento desperdiçado em si, confessa:
-Estava me preparando para um sermão. Seria um dos melhores, era pra campanha, sabe?
Sete só observa.
-Precisei calibrar um pouquinho, sabe, pra abençoar a pregação.
Silêncio.
-Acontece que a coisa era pura, era boa demais... forte demais, aí foi o que aconteceu.
Sete:
-E Motel?
-Uma das garotas foi gente fina, conhecia ela. Ela ligou e se mandou. Deu pra encobrir, meu pessoal resolveu tudo.
Sete se senta, acende um cigarro. Cento e Vinte Um não está em posição de contestar. A fumaça lhe machuca a garganta. Num lampejo de sinceridade, 7:
-Você é um b**ta 121! Tem ideia do dinheiro que botamos na sua campanha?!
Cento e vinte e Um redarguindo:
-Minha mãe colocou o dela também, todos os templos colocaram os seus, não tem só sua grana aí não!
-É um moleque mesmo. E vai se dar mal, estamos saindo da coligação, está sozinho agora.
Bispo Cento e Vinte Um começa a sacudir a mão de nervoso:
Não pode fazer isso comigo! Não pode!!
Um enfermeira entra e ordena silêncio, Bispo 121:
Cala boca vadia! E para Sete: -E... e, e o vice?
Sete, pisa no cigarro sob os olhares de censura da enfermeira e secamente dá a questão por encerrada:
-Fora de cogitação.
Bispo 121 começa a balbuciar palavras ininteligíveis. Sete com uma calma nervosa, fita o Bispo com seus negros olhos e apontando:
-Primeiro: a conta vai pra sua mãe; Segundo: se não quiser morrer, cale a boca; Terceiro: amanhã mesmo me reunirei com Seis, vou propor outra aliança.
Bispo Cento e Vinte Um, mais do que rapidamente:
-Ele não vai querer, lembra do que fez pro partido dele, eles te odeiam.
Sete, em réplica:
-Não me odeiam, isto é política. E, além do mais, dessa vez, tenho uma carta na manga.
Bispo 121, com toda sua magreza, seus curtos cabelos encaracolados, membros finos, testa larga, encolhe-se cada vez mais em sua cama; parece sair de órbita. Voltando rapidamente a si, com um meio sorriso na cara, o sorriso amarelo do perdedor:
-Sabe uma coisa boa disso tudo?
Sete não responde, somente enruga sua testa já bastante definida pelo tempo.
-Pelo menos eu não sou gay.
7 se levanta e desfere um tapa na cara do Bispo. Forte o suficiente para derrubá-lo da cama. Saindo do quarto escuta a risada ao fundo, uma risada insana.
Não dá muita importância, tem plena certeza que terá sua desforra mais adiante. Só precisa pensar melhor.
Chegando ao saguão, como havia combinado, Quatro lhe espera.

Dois carrega todo o papelão para fora da casa. Sempre levava à rua para que o catador transportasse para a reciclagem. Era diferente do lixo comum. Dessa vez, o carroceiro não era o mesmo. Um tipo diferente, alto, esguio, mulato e com sobressaltado bigode. Roupas surradas, calça azul e camisa branca, aberta, mostrando abdômen definido pelo peso da carroça.
Dois pergunta pelo carroceiro anterior e o novo responde que está doente. Dois pergunta seu nome e ele responde:
-Oito senhora.