quinta-feira, 28 de julho de 2011
Capítulo XXVII - Réquiem (Parte Final)
"Não tema, não se desespere;
Não é para sorver lágrimas.
Repouse e perceba a dor ir embora;
Siga o calor desta luz.
Não é como dizem;
Não lute, não resista.
Pois a morte é uma amiga;
Que esteve sempre aqui,
esperando por ti para levar-te embora"
3, 2, 1...
Fim e re-começo
Escrito e composto por Calibam
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Capítulo XIV - A Torre Quântica
Le Postillon, de Adolphe Adam não soava doce aos ouvidos de Um. Os intrincados elementos angelicais das óperas não entram na mentalidade ordinária dos brasileiros em geral. Somos todos uns funkeiros mesmos! Uns imprestáveis e merecemos este zé povismo por demais emaranhado para se extirpar. É o nosso câncer.
Na campanha é preciso onipresença, onisciência e se possível, onipotência. Cercado por um batalhão de assessores, puxa-sacos, seguranças e aspones, a propaganda ia às mil maravilhas. Os discursos inflamados, preferencialmente os improvisos eram ótimos, ainda assim, a programação cultural para fazer 'corpo a corpo' com o eleitorado patronal já é um tanto sacal. Com o povo, tudo bem, pratos nojentos e beijos remelentos, mas era outra coisa. Em contrapartida, esses programas por demais pomposos cingiam num tédio desmedido. Ópera! ÓÓÓÓÓperaaaaa Chaaaaatooooo...
Um está lá, Seis trabalha nos bastidores, cava por baixo. Dez está com ele, sempre.
6: - A candidata do meio ambiente subiu nas pesquisas.
Garganta: não está tão fácil pra vocês.
6: - Engraçado, então não sei o que estou pagando. Seus préstimos parecem um tanto defasados no momento. Isto me obriga a demiti-lo.
Garganta, ciente do significado de "demissão": - 3 corre por fora, está usando o dinheiro de vocês. Ela derrubou o governador de Brasília. Usou o testa. Vocês não têm nada a oferecer, ela pagou melhor, trabalhamos para quem paga melhor.
Seis pede a Dez que busque sua pasta, vira-se à Garganta: -Bem, da morte não teme tanto quanto contrariar os seus, safado.
Garganta: - Existem coisas piores que a morte.
6, sereno: - É, existem.
Dez lhe entrega a pasta. Um bela quantidade de dinheiro.
Garganta: - Parabéns Senhor, acabaste de ganhar mais uma eleição.
Garganta é 10.000.045, mas estou um tanto mandrião para digitar. Pequeno, pardo, corpo mirrado, barba por fazer. Segue solitário com seu grosseiro terno de risca de giz. É perfeito, ninguém suspeitaria.
10: - Mesada do meu avô?
6: - Correto. Notou algo?
10: - Não.
6: - Os macacos, os miquinhos são animais selvagens, podem ser domados, mas não podem ser domesticados.
10: - i?
6: - Quanto se habituam a ficar perto dos humanos, ficam muito atrevidos, invadem as casas, roubam comida.
10: - Por que tá me falando isso?
6: - Porque é preciso pegar um deles e matar a pauladas na frente dos outros.
10: - Porra! Mas pra que isso tudo, por que isso?! Que maldade.
6: - Pra mostrar pros outros que não somos amigáveis. Assim eles não voltam nunca mais.
Seis saiu e Dez ficou...
Isto vai doer Garganta, vai doer pra valer. Nunca se esquece uma traição, por menor que seja. É preciso dar o exemplo aos outros.
Dois já sofria os efeitos do crack. A terrível magnitude dos 5 minutos. O demônio já acessara o corpo, espalhava o vírus rapidamente. Ele controla, ele manda ir em frente, ele manda, ele comanda, ele ele ele...
Oito sugerira, mas Dois segurava. Era difícil, o dinheiro mingua rápido. É preciso se sustentar. Sustentar o insustentável.
Os pedreiros tão rápido tornam-se zumbis. Diferentemente do pó, que pode tomar anos de uso para adentrar o abuso, a pedra é amor à primeira vista. Oito sabia o que fazia, ao sugar mais uma existência vazia, Dois.
Oito já era da favela. A rua chamou cedo, foi sem medo. Cola de Sapateiro, Conha, Farinha, Manguaça... Mas a pedra, ahhhhh, a pedra... a pedra é barata. Está sempre disponível. Na cracolândia, nos hotéis da cracolândia, com a meninas do crack. Safadeza! Safadeza com as meninas!! Cancro.
Sugeria limpar a casa de Um. Dois em reflexo chiou pela loucura. Mas para os cabeça-de-pedra não existe loucura, existe o fazer, existe o agora, existe a urgência da droga. Droga é uma droga, mas se é uma droga por que tantos usam?
Droga!
3 sabia como cortar 1 da campanha. Não bastava ser ex-mulher, pois não existe ex-sogra. É para sempre. Penso até como um pedaço do inferno no plano terreno. Simplesmente descarregar o pente na face não adiantaria. Você até pode conseguir matar, mas alma retorna para lhe atormentar "eternamente". Não há macumba, mandinga, trabalho que faça ir embora. Pois, quando se assina o documento no registro civil, está assinando: minha inimiga. Depois do divórcio? Pior ainda: minha PIOR inimiga. Inimiga figadal.
Só se gasta as burras para se lavar a égua. Despender doze mil reais em um mês de desintoxicação numa clínica, é preciso ser bom. Por falar em bom, 4 já carreava bons anos de vícios. Sua boçalidade tornara-se insuportável. Na vida, alguns inúteis cansam de ser(em) inúteis. A futilidade lhe chegava a doer os culhões. Tudo o que dizia, pensava, sonhava... palavras ao vento. Ninguém levava a sério. Um imbecil, diziam.
Apesar de degustar todas a "...ínas", dessa vez seria diferente. Desta vez ruminava uma coisa que se aproximava rusticamente de algo parecido a uma ideia.
Obviamente não seria como seu pai, todavia poderia ser sua so(m)bra. Sair do ostracismo, agir, atingir... ser, uma vez na vida, significante. E começaria a partir do momento em que limpasse a mente. Hummm... Ou o que restou dela.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Capítulo XIII - O Bom calado é subjugado pelo Mau, o Mal grita.
E por que haveria de compreender?
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Capítulo XII - Despeja-se o Magma Cítrico
Duas mentes que não valem por uma não podem compor plano mais paupérrimo: saquear a casa do patrão, sob a justificativa de anos de exploração! Assim, de sopetão! Planos mirabolantes que surgem depois de coitos consumados, depois de consumos de substâncias, depois de qualquer coisa.... projetos paridos de sustos tentem a desmoronar tal qual castelos de biscoitos de polvilho.
A lhanura de tal improvisado plano de furto é azo para lotar as cadeias nacionais. Se for para ser burro é melhor ser honesto. Infelizmente a safadeza fala mais alto. E tem passado de 80 decibéis ultimamente.
12 era jardineiro. Tinha na face as rugas do titã Atlas. Uma infância e juventude tão miseráveis quanto de Dois. Sua miserabilidade traduzia em suas roupas ordinárias de cores cáqui e outros tons sóbrios. Tecidos pesados, como suas mãos, como seus pensamentos. Não conseguia falar muito. Ouvir, ouvia, mas ignorância alheia lhe doía aos ouvidos. Por duas vezes na semana, ia à casa de Um para tratar do exterior da propriedade. Não lhe davam nem um copo d'água, nem mesmo Dois. Bebida da torneira mesmo. Estava acostumado. Não perguntava à Deus das agruras da vida, simplesmente passava por elas sem se queixar. Era honesto, apesar de não precisar. Era sábio, apesar de também não precisar sê-lo. O tempo foi duro com sua pessoa, mas não devolvia ao mundo seu pesar. Digeria tudo e devolvia em jardins ornados, paisagens deslumbrantes e flores raras. Flores que não cobrava para colocar, colocava-as de graça, só recebia pela poda e corte da grama. Certamente devia ser um artista, pois aformoseava seus canteirinhos com delicadas poesias florais.
Um ganha pão extraído de todo esterco que levava para o labor diário, cavucando a terra, lama, suor... Tinha direito ao sono dos justos, pois quando terminava sua alma estava limpa e tinha a plena sensação de dever cumprido. Só não conseguia dimensionar grandiosidade de sua obra... que ficasse para os outros.
Doze só não gostava da corrupção do homem. Não tivera ensino religioso, muito menos gostava de religiões. Detestava-as todas. Porém seguia seus mandamentos sem saber. Passou fome e não roubou, teve ódio e não matou... simplesmente nasceu assim... sábio e bom.
Três estava independente. Com dinheiro, com amantes e com poder. Era o ápice de seu proselitismo feminista. Girl Power. Era preciso agora colocar seu nome na Capital.
Só era paradoxal trair seu ex marido sem o menor pudor e ainda acusá-lo de seu crime ao mesmo tempo que estava livre para trair o seu partido, mas não conseguia (?!). Por que? Sua perfídia conheceria algum limite? Ou era apenas um momento de tédio?
Vai saber.
-Como pôde 3 ter sido tão cadela?!
A misoginia retumbava no ancião, o Senhor... Vossa Santidade.
O rosto sereno e o bigode bem aparado. Um rosto de "tudo bem".
Tudo bem, mas ele não esquece, o partido não esquece, os políticos em geral não esquecem. São como os juízes... rastejam para se vingar, comem poeira... se vingam calados, mas se vingam bem. 'Tudo bem'.
Quanto mais asquerosos melhor. Aqueles que têm nojo não querem se misturar, melhor para eles, pois quem não põe a mão na merda será inevitavelmente governado por um. Daí não serão as mãos, será então o pulmão, o ar, a tevê, a internet, sabe-se lá mais o que?!
Três sabe lidar com eles. Partindo do princípio de que sabia a arte da escatologia, bastava uma luvinha de borracha e mãos-à-obra! De moedinha em moedinha fazia sua caminha. Pecunia Non Olet: O provérbio mais sacrossanto dos brasileiros. Todos sem exceção. Todos. Todos são Três. Todos nós somos Três. 3 somos todos nós.
Talvez para o mais velho deles 3 fosse uma cadela, mas para a cadela... era terça-feira.
Plágio!
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Capítulo XI - Eleva-te, sustenta-te...
Tem uma pequena queda por drogas, mas nada que arranhe sua resplandecente beleza.
Carrega em seu currículo dois casamentos, o primeiro com um conhecido diretor de novelas (filho A) e após o biênio, um banqueiro (e mais outro filho, B). Dois anos já o suficiente.
Uma outra quedinha por pílulas e barbituricos também não é o suficiente. É preciso coroar a formação, é preciso garantir a aposentadoria: um político.
11 finge não ver o bissexualismo de 7, afinal já saira com gays. Sete comparece, Sete é proteção, Sete é poder. E não existe tesão maior do que poder.
Doze, produtor de filmes, por exemplo, nunca a comeu. Tomou-a como protégé. ensinou tudo o que sabia, acompanhou seu crescimento artístico, mas nem um mísero beijinho. Sem poder sem tesão, simples.
Cinco despedaçou-se quando descobriu. Oitenta e Cinco e Um, juntos! Aquela puta!!
Sentia o sangue negro do ódio percorrer-lhe os vasos capilares. O animus necandi vir-lhe à mente. Ao mesmo tempo que apercebia-se de sua insignificância... "sem poder sem tesão". Era um secretário, recebia ordens, subalterno, que mulher gosta de um servente? Doía demais, mais do que podia aguentar.
Mas era um omisso, um fraco, um frouxo. Tanto tempo no partido, dividido, dominado pela máquina, já não havia o que fazer; ir para os cantos e lamber as feridas, gritar para que quiser ouvir seu pequeno odiozinho contra Um. Podia aguantar sim. Todos suportam, por que não suportaria? Tinha algo a perder, sua ira pequeno-comunista. Suas bandeirinhas sociais, sua pequena corrupção estilo "fins justificam os meios", seus pequenas hipocrisias (idiossincrasias).
-Tolerarei pelo partido!
Era uma boa desculpa. Que babaca.
Um sai da sala choramingando. Teatro. O importante é a grana. Garantir a campanha.
Nova telefona para sua mulher (o maior metro quadrado de jóias do Bra'Z'il):
-Querida, estou indo pra casa, precisa de algo?
-Queijo de Alce.
-Algo mais?
-Não.
-Ok.
É assim, mais afetuosos impossível, apesar que soar melhor a muitos casamento por aí.
Solicita o ajudante de ordens, ordena a compra do moose cheese e aproveita que este faça uma cópia duma fita que acabara de gravar. Só pra garantir, "o seguro morreu de velho", sempre dizia.
Cinco carregava um pacote pardo, todos sabem o que um papel pardo significa. A humanidade é idiota. Caga na água que toma, nem os animais (fora os peixes) fazem isso. Documentos essenciais num papel pardo.
10, mais calmo: -o que realmente aconteceu?
6, -9 é um líder nato, pode-se odiá-lo, mas é difícil questionar seus métodos.
10, impaciente: mas o que aconteceu p...?!
6: uma garantia, arras, um sinal... 9 quer ter certeza que não perderá. Ele nunca perde. Precisa de um dossiê, ao invés de ir ao mercado comprar um prefere fabricá-lo. Da mesma forma, expõe que está no comando da situação, é o macho-alfa agora. He he, uma pequena tacada para diversos coelhos. Um verdadeiro mestre.
10, um tanto enojado: -jamais faria isso, é como vender a alma pro demônio. Esse cara é o verdadeiro belzebu.
6, sarcástico pela ingenuidade do estagiário: duas lições meu caro jedi, a primeira, em política não existe o advérbio "nunca"; em segundo lugar, já vendestes... Avise o velho. Diga que deu tudo certo.
caaaatiiiiingaaaa.
Nuvens de poeria e espinhos.
Não é deserto, mas também não é cerrado. É errado, é certo.
Não é por ser o ciclo da seca, muito menos pela miséria. Dois odiava água parada, água barrenta, sinônimo de doenças... A molecada entrava, mas tinha tino de perceber o que viria. Todos os onze irmãos barrigudos, inchados, infestados de vermes. A esquistossomose era severa naquela paisagem áspera, era rezar para não pensar.
Um dia se compra um sonho para o paraíso. Num manjadíssimo pau-de-arara. A caralhada em caravana, rumo à terra do leite e do mel.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Capítulo X - No Caminho do Cisne
Sete, encapotado em seu sobretudo preto, fuma cigarros light. Precisa mexer as peças, está particularizando uma estratégia. Perdeu seu candidato, vai precisar alugar outro (Um). É pouco. Existe outra ameaça também. A candidata do partido do meio-ambiente. Sim... perigosíssima. Candidatura de última hora, rápida catalisação nas pesquisas. É preciso fazer algo...
Liga para Três.
Após uma campanha maravilhosamente bem sucedida, Cinco era secretário da cultura. Respondia diretamente ao seu “amigo” e recém eleito Um. Nada era impossível, um rolo compressor, uma força que dizia à montanha: - afasta-te! E ela se desfalecia.
A honestidade era o lema, era a lei. Eram mais que os outros, eram diferentes, eram o novo, eram os super-poderosos (os foderosos). Tinham suas estrelas na agremiação, Um, por exemplo; suas foices que ceifavam os fariseus do mandato anterior (que eram como cães deitados nas manjedouras dos bois. Não comiam, nem deixavam os bois comer),por fim, os martelos, como Cinco trabalhavam como burros de carga no engajamento das “causas” que chovessem em seus jardins. Fé cega.
Nove em meio aos seus, hum..., asseclas ditava as próximas medidas. Desoneração fiscal, reclames de repasses e super-faturamento na obra do anel viário. Só se põe o primeiro cimento, quando todos os pingos estiverem nos is. Era impressionante sua capacidade intelectual, os planejamentos, as diretrizes, a frieza e inabalável calma ao lidar com os problemas. Na dialética de 9, só cabia contra-argumentar monossilabicamente (hum), no máximo, amém.
Chegam à távola redonda, Seis, Dez e Um, cumprimentam todos os presentes pelo nome (o egípcio livro dos mortos foi de grande utilidade aqui). Nove, somente acenando, analisa, prepara sua estratégia:
Seis, começando: -Senhores, acho que não é mais segredo para ninguém aqui que estamos em campanha , e Um é nosso candidato.
Nove: -E qual seria o motivo de tão cordial visita, se não para pedir dinheiro.
Não tem papas na língua, é bom em constranger e sumarizar o assunto. Daí sua grande capacidade para negócios.
Um, em retomada: -estamos dispostos a ceder.
Nove, à Jaba, The Hutt: o quanto?
Um: 25% das licitações. 100% da merenda escolar.
Nove, muito bem informado por sinal: -Não vai recuperar o prejuízo que deu ao teu partido. Estamos com 365, a candidata do meio-ambiente. Desista vá embora.
Seis, nervosamente testa antes que tudo se perdesse: -Senhores... senhores calma. Acho que podemos chegar a um meio termo. Não podemos ceder totalmente a construção civil, realmente temos esse prejuízo. Todavia, garantiremos a merenda, com exclusividade (frisando exclusividade). Em um ano podemos reerguer para a campanha presidencial. Existe um bônus senhores... é... sim, existe um bônus... os medicamentos do sistema de saúde. Retiraremos as câmeras, e colocaremos nosso pessoal. Os medicamentos serão exclusivos de Vossas Senhorias, assim, que recuperarmos o dano, ruas, casas populares; porém só o suficiente para encostar no limiar da lei de responsabilidade. O valor de V.Sas. é X!
Nove: -hahaha, muito pouco.
Seis: -Como!? Demos tudo, é mais do que o suficiente. O que mais você quer?
Nove: -Fidelidade.
Seis, Um e Dez, olhando uns para os outros, sem entender.
Nove, em continuidade: -quero fidelização, certeza absoluta que mais pra frente não serei passado para trás.
Seis: -... tem a nossa palavr...
Sem conseguir terminar.
Nove, peremptoriamente: -Senhores, saiam! Um fica.
Todos os asseclas encolhem seus ombros e como cachorros colocam seus rabos entre as pernas caminham para fora.
Seis entendendo o que está para ocorrer, começa a tremer.
Dez, em cochicho para Seis: - o que vai acontc...
Seis: -cala boca! Vambora.
Um: -onde vocês vão?
Seis: -desculpe, mas vai ter que passar por isso. Nada aconteceria se não fosse culpa sua.
Um: eu... eu... como pode?!
Seis, encostando a mão no ombro de Um: -meu caro, ou é isso ou é a morte.
Seis praticamente sai empurrando Dez para fora da sala: -vamos esperar na rua.
Um em desespero vê Nove ligando uma câmera: -Vire-se e encoste na mesa Um!
Assim que a câmera é ligada Um começa e ser sodomizado.
Quatro, dentro do muquifo de Cinco:
-Não podemos deixar isto acontecer, leve os documentos para Sete.
-Pra que? Não quero, vamos esquecer.
-Meu, meu pai disse. Disse que você tinha a papelada. Só Sete pode deter Um nesse momento.
-É jovem, e é idiota. Vá.
-Olhe pra você! Que decadência, que porcaria. Poderia ter tudo e está aí, caidão. Fazendo papelzinho pro partido, jogado pra escanteio. Em troca do que? Ideologia de m...
-Cala a boca! Sabe de nada.
-Direi a Sete, que aceitou, é pro seu bem.
Quatro saí. Sete lhe dera o caminho das pedras, agora é só esperar acontecer. A raiva só aparecerá quando Cinco vir Um na tevê, todos os dias no horário político. O coração dos homens é sempre igual. O orgulho e a vingança.
Quem conhece o pai e mãe pode ser chamado de filho de uma prostituta?
Acho que não.
Foi de repente. Cinco adentrou o gabinete de Um vislumbrou Oitenta e Cinco de joelhos ante 1. Foi como uma chibatada no músculo cardíaco. Com a testa fervendo, nada mais importava, o que iria fazer lá, o que ia falar... saiu correndo.
Todos os pensamentos atravessando suas ideias, as lembranças, o que achava que sentia, o que achava que sentia por ele, o orgulho, o desespero, mas principalmente, a impotência. A maldita sensação de que não é bom o suficiente para dar tudo o que 85 precisaria. A fidelidade, a paixão com que adentrou na causa... Nada a impressionara? Sou pior do que Um?
Quando não se aceita ser corno é muito pior, pior porque reflete em todos os atos da vida civil. Tudo fica uma b...
A estrela se apagou. Cadente... caiu.
Aproveitando a saída de Um, Seis e Dez, Dois e Oito aproveitaram para se encontrar no quartinho de empregada. Abafado e úmido, era perfeito para um coito vespertino. Após o ato em si, 2:
-Como você conseguiu estes músculos?
8: -De tanto puxar a carroça.
2: -Puxa muito, meu gato?
8, com seus poucos dentes: -Às vezes o dia inteiro (com um certo orgulho).
-Muitas vezes sem comer nada.
2 impressionada: -E como você agüenta?!
8: -Com isto.
Saca um saco plástico com pequenas pedrinhas brancas. Dois se assusta:
-Meu Deus, que que é isso?!
8: -pedra. Pra tirá a fome, pra trampar...
Dois cada vez mais assustada:
-Num quero isso aqui não. Tira isso daqui.
Oito, dando a menor pelota, tira um cachimbo do bolso e queima a primeira pedra (barulhinho típico). Vira o cachimbinho para Dois, nervosamente:
-Se não der um aqui te encho de porrada! Fuma esta m... Se fumar uma só eu saio.
Só que uma só já é o bastante. Mesmo que não se trague, o calhau traz a euforia e uma pequena sensação de que tudo-pode, tudo-se-faz... um certo bem-estar. A primeira é sempre a mais inacreditável, é a melhor....
Sete termina seu cigarro. Olha o relógio e pensa: -ela não vem. Quando se levanta vê que ela está vindo em sua direção. Um porte elegante, como um cisne na lagoa. Sua boina, seu casaco de pele, mãos finas e olhos extremamente azulados. O vento espalha um pouco dos seus louros cabelos, numa valsa a dar sentido à natureza.
Quando ela chega, o cumprimenta com três beijos no rosto. 7 está mais leve, a beleza alivia a alma. Isso é uma coisa espirituosa dos giletes. Eles se dão bem nas duas direções...
Onze é estonteantemente linda.
Ю
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Capítulo IX - 999
Não era música, era massa sonora ruidosa. Coisa pestilenta. Reproduzida por um acordeão, triângulo, teclado (bem brega por sinal) e outros instrumentos. Uma moça usando top(zinho), rebolando e expondo a gelatinosa pança para sua platéia. Abusava dos agudos vocais até o estouro dos tímpanos dos mais incautos.
Seu par de canto, não menos ridículo, tem o cabelo alisado à base de muito hair tong, mais conhecido nessas bandas como "chapinha". Só mesmo muito manguaçado pra aguentar o ambiente catinguento pelo excesso populacional. Uma mescla de cigarro, pinga e suor. Infelizmente para muitos a única fonte de lazer que cabia no orçamento doméstico.
O mulambo cruza uma floresta de pessoas com o fumo na mão. Incrivelmente consegue se esquivar de todos os transeuntes na pista até chegar ao balcão. Pupila dilatada e o branco dos olhos tão vermelhos quanto os néons de bordéis locais. Pede mais uma, a décima, mas ainda está de pé. Puxou muitas viagens com a carroça durante o dia.
No recinto, uma mulher encorpada, dentro do seu vestido de pano, dança fastiamente seu forró. Parece não estar muito interessada no seu par e sai para pegar mais uma bebida...
-Oi, você não é moço da carroça?
Ele responde: -
-Ãn, mmm mmm (tradução: é, sou).
Ela insiste na conversa: - E o que o Senhor tá fazendo aqui?
Ele retruca: -Tva, é mm eu luuugrrrr sssa irrrr... (Estava, garbosa mulher. Este estabelecimento é de minha magnânima preferência).
Dois percebe que Oito está prestes a cair, carrega-o em seus grossos braços e vai pra pista.
Agarra-o e começam a dançar.
Ele: -kkk qãn bmmm kkra thá? (Por que me carregas em teus membros superiores. Por onde andaria teu exordial companheiro?).
Ela surpresa por ele ter reparado: -Vamo dançar! Vamo dançar! Ele deve tá caído por aí.
Oito volatilizava o álcool em velocidade sobre-humana. Naquele momento os dançarinos, a zabumba, sanfona e triângulo eram um só. 8 revelava-se ágil nos passos e firme na dança. Conduzia 2 como só se houvesses somente os dois, ou melhor, como um só.
A poeira levantava, as horas passavam, pessoas iam embora, a banda há muito deixou de tocar e mesmo só com o som do DJ, o momento congelara-se lá. Dois até pensou um pouquinho no homem quem dançara anteriormente -Ele já deve ter ido embora-. Não gastou muito tutano com isto.
Não é preciso dizer que pouco antes do amanhecer ambos estavam num dos motéis econômicos da região. Mais um dos notórios coitos à brasileira [sem proteção] (quando essa gente vai aprender?!).
Dois retornou para sua moradia esfuziante. Oito voltou pra qualquer lugar. Onde deitava sua cabeça era seu lar.
X
Cinco acabara de fazer amor com Oitenta e Cinco. Esta se levanta pega as roupas e se apronta para sair. Ele um tanto incomodado com esta reiterada postura indiferente pergunta:
-Por que você faz sempre isso, por que não fica um pouco mais comigo?
Ela ríspida: -Ué, é meu dono agora?!
Sai batendo a porta.
Cinco aos poucos começa a entender como as coisas são. Seu coração apertado e angustiado já processavam a informação de que não é mais a prioridade de 85. Há muito já notava. Acabara-se a adrenalina, a pegação, as tardes antes das aulas. Tudo estava intensamente rápido, frio, vazio.
Não tem muito tempo para seus anseios. Logo deveria encontrar-se com Um para a reunião do partido. Cinco passou os últimos cinco dias elaborando o jornal interno e circulares. Seria um importante passo profissional, afinal quase todos os jornalistas do país de alguma forma eram ligados à ala que pertencia. Queria estar neste momento no lado vencedor e Um era uma estrela em ascensão.
X
-Um é uma estrela em total decadência. Explicava Seis ao estagiário, 10: -Teoricamente não vamos usar o dinheiro do partido na campanha, um terá que suar para financiar sua jornada rumo à Prefeitura.
-Mas como ele vai conseguir tanto dinheiro, depois de tudo? Seis, um tanto atarantado pela pergunta inesperada: -De Nove pode-se esperar tudo. Provavelmente negociarão cargos na administração direta e no Tribunal de Contas Municipal que criaremos.
Dez, com o fulgor da inteligência da juventude, porém ingenuamente: -Mas não é proibido pela Constituição no seu parágrafo quarto do artigo trinta e um?
Seis e Um começaram a gargalhar com tamanho disparate como não faziam há tempos.
Desconheciam a palavra proibido. Acho que também desconheciam a palavra Constituição.
X
No coração financeiro da capital, Nove reunia-se à nata metropolitana.
9 é diferente de outros presidentes de federações de indústria. Tem pedigree, é bisneto de italianos que chegaram da imigração, o bisavó no começou como industriário e rapidamente subiu, chegando a ter sua própria indústria. O avô deu continuidade, aumentando o número de fábricas; o pai veio e modernizou o parque industrial, sofreu com as "grandes greves" da "grande metrópole". Nove praticamente sumarizou o veni, vidi, vici das gerações antepassadas. Sua liderança é inconteste no meio. Entrou e saiu da política várias vezes para defender os interesses do seu estado (entenda como quiser), sendo o Senado uma de suas casas favoritas.
Entretanto, sofre de um pequeno desvio. Uma moléstia de família que seus progenitores também não conseguiam disfarçar: a concupiscência. Nenhum mesmo... o bisavô pelas concubinas, o avô pelo jogo, o pai pela erythroxylum coca e 9 por sua pública compulsão sexual por homens.
Por saber lidar muito bem com o poder, a ala religiosa não consegue detê-lo, por isso aceitaram a derrota e tentaram contemporizar. Era melhor juntar-se a ele, pois sua ira é colossal, não admite traições. Carreiras brilhantes já sucumbiram em apenas uma ligação sua às pessoas certas. A primeira coisa que se ensina ao imprudente antes conhecê-lo: é que não pode ser contrariado. Ainda assim, sua bênção é prestigiosa, apesar do alto preço cobrado em troca. Às vezes alto demais.
X
Seis seguia uma instrução cuja sugestão fora de sua autoria. É jocoso como nossos chefes nos tomem as ideias como se deles fossem. É como no Brasil que tem sua biodiversidade explorada, copiada ou simplesmente pirateada e depois somos obrigados a comprar mesmíssimos produtos que por direito natural já eram nossos!
Após instruir Um para a reunião, Dez, o estagiário, perguntou: -E o que vai acontecer nessa reunião?
Seis após um pequeno momento de reflexão, disse: -Realmente não sei.
Sentiu que pela primeira vez poderia perder o controle da situação. Nove era onipotente, onipresente, e onisciente nesta parte do país. Um deveria tomar muito cuidado com as palavras, bem como deveria aceitar qualquer termo, encargo ou condição que lhe fosse imposto. Era muito dinheiro pra recuperar em apenas dois anos de mandato. A eleição presidencial era uma constante. Era preciso fazer 666 virar 999, a qualquer preço.
X
Onze ainda não entra na história.
